terça-feira, 18 de maio de 2010

O dia do descanso em Viçosa

Domingo. Oito e meia da noite. Uma multidão desce as escadas do Santuário Santa Rita de Cássia, após o término da última das cinco missas do dia na igreja. Algumas pessoas se aglomeram às portas do templo, encontram os amigos e ficam conversando e planejando a semana. A maioria delas, porém, caminha da igreja em direção à praça e ao calçadão.
Um grupo formado por duas senhoras de meia idade e seus respectivos maridos dobra uma esquina e em poucos segundos some na escuridão da estreita rua. Outro grupo, só de adolescentes, para em frente ao shopping. Eles discutem se vão ficar por ali mesmo ou não e decidem entrar, atraídos pelo cartaz do filme que dentro de poucos instantes será exibido no cinema. Um casal de namorados atravessa o calçadão, onde permanece por um tempo admirando as novidades da moda outono/inverno nas vitrines das lojas, e em seguida senta em torno de uma das mesas de um trailer de lanches para ‘jantar’ antes de voltar para casa.
Esse é o retrato da Viçosa que, mesmo em um domingo à noite, continua tendo suas ruas bastante movimentadas, dessa vez não pelos estudantes que vão e voltam da UFV, mas pelo vai-vem de pessoas que não deixam de participar da tradicional missa dominical antes de começar a semana de trabalhos e estudos.
Não é possível falar do domingo em Viçosa sem dar atenção a outros tipos de aglomeração, embora menos diversificadas em termos de faixa etária, como os universitários (principalmente eles) que lotam os bares da Avenida Santa Rita, após as três horas da tarde, à espera do início dos jogos dos campeonatos de futebol. A cada gol marcado ouvem-se gritos comemorativos vindos dos bares e também de torcedores solitários em apartamentos próximos à Santa Rita.
O que mais impressiona quem percorre o centro da cidade em dia de domingo é a tranquilidade com se pode atravessar a Avenida P. H. Rolfs, sem se preocupar com o fluxo intenso de veículos, como nos dias de semana. Ao contrário do sábado, quando um mar de gente da cidade inteira sai às compras e passeios pelas lojas, invadindo o calçadão e tornando esse lugar extremamente barulhento e difícil de andar, nas manhãs e tardes de domingo, o clima é de muita paz e o silêncio, quase de deserto.
Há lugares que praticamente nunca vivem um ‘espírito dominical’ (no sentido de calmaria) em Viçosa: os maiores supermercados da cidade e o restaurante universitário da UFV são sempre muito frequentados nesses dias. Às vezes recebem até mais gente nos finais de semana do que de segunda a sexta-feira.
O público que caminha pelo campus da universidade aos domingos também costuma ser um tanto diferenciado em relação aos outros dias da semana. Sai a multidão de jovens carregando suas mochilas para dar lugar a pais e mães acompanhados de seus filhos – crianças e adolescentes correndo, andando de bicicleta e aproveitando as belezas naturais do campus, face à deficiência da cidade em oferecer opções de lazer adequadas a não-universitários.
Para aqueles estudantes que estão muito longe de sua verdadeira casa – sua terra natal –, as tardes de domingo em Viçosa são acompanhadas da nostalgia (para a imensa maioria, saudade mesmo!) de quando, antes de virem para cá, podiam curtir todos os finais de semana com a família e os amigos de infância. Apesar de em Viçosa a estada da maioria dos universitários não durar mais do que quatro, cinco anos, como fica o temor do futuro? E a sensação de “como será daqui para frente”, ao avistar a linha de chegada cada dia mais próxima?
Se por um lado existe a possibilidade de voltar para casa, para junto de quem permaneceu o tempo todo torcendo para que tudo desse certo a muitos quilômetros de distância, existe também a opção – talvez até mais provável de acontecer – de o recém-graduado alçar um novo voo, para uma localidade ainda desconhecida. Será uma nova aventura por outra Viçosa, que pode ser maior ou menor, mais bonita ou mais feia, mais longe ou mais perto da terra natal, porém certamente essa nova cidade continuará trazendo desafios, surpresas, maravilhas... e domingos cheios de peculiaridades, sempre aguardando alguém para explorá-las.