segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Em bairro de padres e santos, IML da zona leste recebe corpos de vítimas de agressão

Em Artur Alvim, na zona leste da capital, várias ruas e avenidas dos conjuntos habitacionais Padre Manuel da Nóbrega e Padre José de Anchieta (Cohabs I e II), inaugurados em 1978 pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo, têm nomes de padres. Antonio dos Reis, Cláudio Gomes, Gabriel de Campos, Jerônimo Machado e Vítor Mariano são alguns exemplos. Os nomes dos condomínios também remetem à religião – Santa Isabel, Santa Rita, São Francisco, São Jorge, São Pedro... 
O Instituto Médico Legal (IML) que atende essa região paulistana fica na Avenida Padre Estanislau de Campos, esquina com a Avenida Padre Tomás de Vilanova. Ao contrário dos santos e de muitos padres católicos, cujas mortes até hoje lhes trazem reconhecimento e honras, os corpos que chegam ao IML da zona leste são de vítimas de agressão que, geralmente, eram e permanecerão anônimas. A unidade só recebe vítimas de violência ou com mortes consideradas suspeitas. Outros casos são encaminhados ao IML Central, localizado no Hospital das Clínicas, em Cerqueira César. 
Aos 43 anos, Fábio Abreu trabalha há 20 para uma funerária particular, na qual enfeita os caixões que saem com defuntos do IML de Artur Alvim. É com naturalidade que ele fala dos casos em que houve maior agressão às vítimas. “Todos nós temos família e sentimentos, mas com o passar do tempo nos acostumamos a lidar com isso. Quem trabalha na área já nasce preparado para a função. Eu mesmo nem olho para o rosto do defunto enquanto arrumo o caixão.” 
Colega de Fábio na funerária, Karina Bertozo tem metade da experiência dele na preparação de caixões. Há 10 anos na função, ela, que tem 30, concorda com ele quanto ao fato de se acostumar ao ofício. “Para mim, virou rotina. Tem gente que me pergunta se à noite eu sonho com corpos ou algo do tipo, mas isso nunca aconteceu.” 
O aposentado Achilles José da Silva, de 60 anos, mora na Cohab I desde que ela foi inaugurada e diz se sentir seguro no bairro. “Essa região é bem tranquila em relação a outras da zona leste. O que sempre vejo chegar ao IML, a cada dia em horários diferentes, é um microonibus da polícia cheio de detentos algemados, em geral presos por tráfico de drogas e brutalidades como assassinatos. Eles passam por exames de corpo de delito e são levados para as cadeias. As emissoras de TV com programas sensacionalistas estão sempre lá para fazer reportagens sobre esses crimes bárbaros.”

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