terça-feira, 18 de outubro de 2011

Lar Sírio Pró-Infância prepara menores para a superação de traumas e a convivência em sociedade

O adolescente A., de 13 anos, carrega seu MP5 pelos corredores do Lar Sírio Pró-Infância. Ele gosta mesmo é de jogar bola, mas, desde que a quadra entrou em reforma, sua diversão são os jogos virtuais no aparelho, presente de um colaborador da entidade. Ele e a irmã, A., de 11 anos, chegaram ao Lar em dezembro do ano passado. Como eles, mais 18 menores em risco de vulnerabilidade social vivem no abrigo da instituição.
A Vara da Infância e Juventude, do Poder Judiciário, é o órgão responsável pela intervenção nas famílias de jovens em risco e o consequente envio deles a um abrigo. Os motivos para o abrigamento são variados: pais dependentes químicos, desaparecidos ou mortos, bem como os que agridem e abusam sexualmente dos filhos.
A superintendente do Lar Sírio, Cleide Robertson Paiva, diz que em 2003 a entidade reformulou sua metodologia de trabalho, diminuindo de 200 para apenas 20 crianças e adolescentes abrigados, com a finalidade de atendê-los conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “Muitos abrigos ainda acreditam que existem só para recolher o menor e ali mantê-lo enquanto for preciso. Ao reduzirmos nosso limite em 90%, começamos a fazê-los acreditar que essa é apenas uma fase de suas vidas, que eles têm potencial para superar seus traumas e ser alguém no futuro.”
Cássia Nascimento Bezerra Lopes e Marinalva do Nascimento são as assistentes sociais que coordenam o abrigo. A tarefa não é das mais fáceis. “A todo o momento estamos mediando conflitos. Um pega o tênis do outro, briga por coisas bobas... Sabemos que eles querem ter uma família, ainda que não seja sua família biológica, mas também precisamos prepará-los para o futuro, impondo limites e ensinando-os a viver em grupo”, diz Cássia. “Os mais velhos já aprendem a lavar a própria roupa e a louça, a arrumar o próprio quarto e a ajudar em outras tarefas. Tudo para contribuir com o próprio desenvolvimento deles.”
Marinalva conta que, em certos casos, os abrigados recebem visitas de seus pais e diz que esse contato ajuda no retorno do menor à convivência familiar. “Isso só não é possível quando não se sabe o paradeiro do pai e da mãe ou quando, devido a ameaças e violência doméstica, a Justiça impediu os pais de se aproximar dos filhos.”
Apesar das dificuldades de aprendizagem enfrentada por muitos dos abrigados, existem casos de sucesso. A adolescente M., de 17 anos, está se qualificando profissionalmente para encontrar emprego. “Vou terminar o ensino fundamental, fazer o supletivo do ensino médio e começar a trabalhar na área de estética e beleza. Já fiz cursos de design de sobrancelha e maquiagem profissional”, conta. Sua irmã E., de 15, quer seguir outro caminho. A adolescente faz aulas de ginástica olímpica no Serviço Social da Indústria (Sesi) da Vila Carrão e pretende se aprimorar na modalidade.
O Lar Sírio Pró-Infância, criado e mantido desde 1923 pela colônia sírio-libanesa de São Paulo, é uma instituição privada sem fins lucrativos, políticos ou religiosos. Contando com o abrigo de menores, 1.600 crianças, adolescentes, jovens e suas famílias são atendidos em seus diversos programas de promoção social. Entre eles, está o que proporciona atividades extracurriculares em período integral; o que funciona no período oposto ao escolar e oferece formação social, artística, esportiva, cultural e de lazer às crianças e adolescentes; e o que objetiva a inserção de jovens no mercado de trabalho, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac).

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