terça-feira, 8 de novembro de 2011

Portadores de psoríase demoram a obter diagnóstico por não procurar ajuda especializada

A psoríase é uma doença crônica genética que atinge 2% da população mundial. Caracterizada por inflamações que fazem as células da pele em várias partes do corpo se multiplicarem em maior ou menor grau. Quanto mais cedo é detectada, mais rápido ela pode ser feito seu controle, que dura a vida toda. Muitos portadores da doença, porém, procuram primeiro clínicos gerais e médicos de outras especialidades, que não a dermatologia – a indicada para o tratamento da psoríase.
A enfermidade costuma surgir na faixa etária entre 20 e 40 anos de idade, afetando por igual homens e mulheres e sendo mais freqüente em pessoas de pele branca. No início deste ano, Luiz Loyola Neto, de 23 anos, começou a apresentar manchas avermelhadas com escamas prateadas nas pernas. Eram lesões do tipo gutata – nesse caso, a pele fica com ‘gotas’ semelhantes às provocadas pela catapora.
Desde então, ele passou por um alergista, um imunologista e mais dois clínicos gerais até chegar a um dermatologista, que diagnosticou a psoríase. “Primeiramente, tomei antibióticos durante 10 dias, para erradicar a bactéria que me causava muita coceira. Eu ia dormir com a pele sangrando de tanto coçá-la.”
A situação de Loyola Neto só melhorou depois de um mês de tratamento com os antibióticos e o uso de talco e creme apropriados. “Esse é o período que a pele leva para ser ‘trocada’. Após essa fase, é possível, com o tratamento, manter a psoríase estável, como é meu caso agora”.
A dermatologista Maria Cecília de Carvalho Bortoletto, do Laboratório de Psoríase da Faculdade de Medicina do ABC, explica que a demora em detectar a enfermidade se deve à procura por médicos de outras áreas. “Como não há dermatologistas suficientes no Sistema Único de Saúde (SUS), a pessoa procura logo um clínico geral, com quem consegue mais rapidamente uma consulta. Até ela chegar ao especialista, a doença já piorou.”
Maria Cecília reforça que, ao contrário do que muitos pensam, o estresse não provoca a enfermidade, mas pode agravá-la, bem como a ingestão de determinadas substâncias. “Cigarro e bebidas alcoólicas pioram o quadro apresentado pelo paciente. Medicamentos à base de cortisona, remédios psiquiátricos e alguns para o controle da pressão arterial também”, diz a médica.
Tomar sol é uma medida que contribui para diminuir a gravidade das manchas provocadas na pele pela doença. Entretanto, os portadores de psoríase evitam sair com roupas curtas, como camisetas sem manga, saias e bermudas, para não expor as partes do corpo afetadas pela enfermidade.
Além da forma gutata, existe a psoríase em placas – a mais comum –, que aparece nos joelhos, cotovelos, couro cabeludo e tronco; a invertida, com lesões mais úmidas, que afeta áreas de dobras do corpo, como embaixo das mamas, entre as nádegas, região genital e axilas; a palmoplantar, em locais de atrito, como mãos e pés; a pustulosa, que é rara e apresenta lesões com pus; e a eritrodérmica, que é a forma mais severa e pode atingir a maior parte do corpo.
O tratamento da psoríase inclui, nos casos de maior gravidade, remédios injetáveis. A maior barreira para quem necessita desses medicamentos é o custo deles, que fica entre R$ 8 mil e R$ 10 mil por mês. Poucos convênios privados pagam pelos medicamentos. O SUS fornece os remédios mediante o envio de um relatório, pelo médico que assiste o enfermo, no qual deve constar todo o histórico de tratamento do paciente, incluindo as drogas tradicionais tomadas por ele e que não surtiram o efeito esperado.
Conscientização. A presidente da Associação Nacional dos Portadores de Psoríase (Psorisul), Gladis Lima, diz que a entidade busca, principalmente, conscientizar a população sobre preconceitos bastante comuns em relação à doença. “A psoríase não é contagiosa. Um beijo, um abraço, um aperto de mão não a transmitem para outra pessoa. Os enfermos e seus familiares também carecem de informações sobre a doença, o que nos faz organizar terapias em grupo e publicar cartilhas educacionais.”
Outro foco de ação da Psorisul é a luta para que o governo considere crônica a doença, o que possibilitaria a criação de políticas públicas específicas para os pacientes. “Não é meramente uma preocupação estética. Quem sofre dessa enfermidade costuma se excluir e ter a autoestima baixa. Os portadores também têm maior tendência a ser diabéticos, hipertensos e a ter altas as taxas de colesterol e triglicérides”, explica Gladis.

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